O conforto na repetição
Seu João acorda todos os dias bem cedo, às 4h30. O despertador toca e ele se levanta, toma um gole d’água, acende a luz da cozinha e coloca a água no fogo. O cheiro do café invade o silêncio da madrugada. Dona Maria, sua esposa, ainda dorme, mas não por muito tempo — ela também vai precisar levantar daqui a pouco. Lá fora, o céu ainda é escuro. Ele fecha o portão com cuidado, atravessa a rua e se posiciona no fim da fila que já começa a se formar. O ônibus já chega cheio, como sempre. Ainda assim, consegue entrar. Segura firme na barra de ferro, tenta não cair. Sabe que vai ficar assim por mais de uma hora. No caminho, observa pela janela os outros carros presos no trânsito, os rostos cansados dentro deles. Alguns buzinam, outros xingam.
A cidade desperta como uma fera barulhenta. Quando chega ao trabalho, bate o ponto e começa mais um dia. Já são mais de vinte anos naquele lugar. Conheceu gente boa, enfrentou chefes difíceis. O atual é tranquilo, não exige demais — o que já é motivo de alívio. Quando chega a hora do almoço, bate o ponto outra vez. Senta, come em silêncio. Uma notificação no celular avisa que venceu mais um boleto. Engole a comida e a preocupação. À tarde, o tempo passa mais devagar. Mas o ponto final finalmente chega. Ele bate e vai embora. Volta pra casa do mesmo jeito que veio: espremido, suado e exausto. O corpo cansado, os pensamentos embaçados. Amanhã será igual. Depois de amanhã, também.
No papel, essa rotina parece até segura e estável. Direitos garantidos, férias uma vez ao ano, salário no quinto dia útil. Mas por dentro, é como um turno eterno que vai apagando a mente aos poucos. O corpo se adapta — a mente, nem sempre. A repetição cansa. Torna tudo previsível demais pra ser questionado. Pensar exige energia. Mudar pode significar perder o pouco que se tem. E no fim, a obediência se disfarça de disciplina, a prisão se veste de rotina e a rotina, de normalidade.

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