A Anatomia da Dor – Feridas visíveis e invisíveis

A Anatomia da Dor – Feridas visíveis e invisíveis

As feridas visíveis e invisíveis

Nem todo sofrimento sangra ou é percebido facilmente. Algumas dores caminham bem vestidas, com o celular na mão e uma selfie com um sorriso nas redes sociais. Trabalham, pagam contas, fazem piadas, mas por dentro, algo apodrece em silêncio. Vivemos em um tempo onde o colapso é disfarçado de produtividade. Onde estar cansado demais para sentir virou sinônimo de “estar bem”. Talvez por isso a dor que mais mata hoje não seja a que explode, mas a que se instala — primeiro como incômodo, depois como peso, até virar um vazio. A mente também sofre hemorragias.

Nos primeiros socorros, existe uma distinção clara: trauma e caso clínico. O trauma é visível. Um corte, um osso quebrado ou uma pancada. Exige ação imediata. Já o caso clínico é mais sutil. A dor aparece aos poucos, de dentro pra fora. Às vezes é ignorada por dias, meses, anos — até ser tarde demais. A dor humana segue a mesma lógica. Há feridas que todos veem — e há aquelas que ninguém reconhece, mas que pesam mais que qualquer gesso no braço. A primeira pode nos levar ao hospital. A segunda, ao colapso invisível. E ambas merecem atenção. Mas nem sempre recebem.

Talvez estejamos vivendo uma epidemia de dores não ditas. Uma geração treinada a performar felicidade, enquanto naufraga no silêncio. Precisamos de mais escuta. Mais coragem para dizer “eu não estou bem”. Mais cuidado com aquilo que os olhos não alcançam, mas o peito sente.

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