Banalização da dor alheia
Pedro pedala o dia inteiro. Faz entregas por aplicativo. Não tira um dia sequer de folga. Mais uma notificação: novo pedido. Ele acelera até o restaurante. Na rua, não há lugar seguro para deixar a bicicleta. O espaço público, mais uma vez, dá preferência aos carros. Ele encosta a bike num poste e prende com um cadeado. Entra, pega o pedido. Não demora nem cinco minutos. Ao sair… as rodas sumiram. Só o quadro da bicicleta permanece, amarrado — “Aqui é o Brasil”, pensa, repetindo a frase de Toretto que nunca parece ter feito tanto sentido. E o que as pessoas em volta fazem? Riem. Ignoram. Ninguém estende a mão, estendem o celular.
Um dos efeitos mais perversos da repetição da dor é esse: a gente se acostuma. A tragédia vira trivialidade. O sofrimento do outro perde urgência — e importância. Quando a dor se torna corriqueira, ela deixa de chocar. Se normaliza. Vira só estatística, meme. Nos acostumamos a manchetes absurdas. Lemos. Engolimos. Reagimos com um emoji. E seguimos. Mas… é normal mesmo? Ou só aprendemos a chamar de normal o que, no fundo, ainda nos ameaça? A dor que se repete, cansa. E para não enlouquecer, anestesiamos. É mais fácil rir do que sentir, ignorar do que acolher. É mais fácil rolar a tela do que se deixar tocar. Talvez porque, no fundo, tememos nos identificar demais. Porque no espelho da dor alheia… às vezes, vemos a nossa. Só que do lado de fora.

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